corruptela de Poema em Linha Reta, de Álvaro de Campos*
para Taiguara Almeida.
Nunca conheci quem andasse de peito aberto.
Todos os meus conhecidos têm vestido máscaras sempre.
Eu, tantas vezes frágil, tantas vezes franca, tantas vezes fraca,
Eu, tantas vezes irrespondivelmente verdade,
Indesculpavelmente sincera,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para fazer tipo,
Que tantas vezes tenho sido ridícula, tola,
Que tenho despido publicamente as vestes, ignorado etiquetas,
Eu, que tenho sido estranhada pelas jovens universitárias,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços encantados,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, deixei o rosto;
senti o gosto do sangue na boca com calma.
Eu, que tenho sofrido a angústia das grandiosas coisas ridículas,
Eu verifico que...
...talvez esse seja meu jeito de forjar uma máscara também.
Eu, que tenho me escondido nas palavras,
me abrigado na melancolia.
Eu, tantas vezes triste, tantas vezes quieta, tantas vezes só.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
reclama das dores das máscaras, lamenta os muros,
Todos indivíduos pesarosos - todos eles mascarados -
remoendo sua individualidade por detrás de muros.
Quem me dera ouvir de alguém a voz da alma
Que confessasse não um pecado, mas algum sonho;
Que contasse, não uma história pronta, mas um pensamento instantâneo!
Não, são todos tipos ideais, se os ouço e me falam,
se se pensam observados, representam.
Quem há neste largo mundo que me confesse o que sente só por vontade?
Ah, mascarados...
Estou farta de gente-vitrine!
Onde é que há coração no mundo?
*O original: http://www.insite.com.br/art/pessoa/ficcoes/acampos/538.html
domingo, 29 de junho de 2008
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1 comentários:
puxa, não tinha visto isso.
Você não sabe como me caiu como uma luva exatamente agora que eu tenho me achado tão falsamente moldada por mim.
(em 23 de setembro de 2008)
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