quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Fragmentos, confissões.

"Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,

de repente ouço a voz de uma viola...
saio desanimado.

Ah, ser filho de fazendeiro!
A beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,

é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de."

[Drummond]

***

- Relaxa. Você acaba vendo a beleza e a poética do desassossego.

- Sério que você está falando isso pra mim? Não aguento mais ver a beleza poética do desassossego. Da tristeza, da angústia, da melancolia, da nostalgia, da aflição... da solidão. "Não sou alegre. Sou até muito triste." Mas isso tudo é só vontade de parar de sentir essas coisas todas. Mas eu não consigo. Porque isso não dá pra fazer sozinha. O único remédio, o único remédio mesmo - e é por isso que esse é o grande objetivo da humanidade - é o amor. Mas isso não existe pra mim.

- Não escute nada da Edith Piaf hoje. Do contrário cometerás suicidio. Mas falando um pouco mais sério: você é feita para o amor, como todos nós. Você mais que outros, minha linda poeta. Acredite.

- Isso é andar na beira do abismo, meu amigo. Pra se jogar é só um passo... Eu precisava mesmo era de um arsenal eterno de brigadeiro, álcool e cigarro. Aí sim! Aí eu morreria antes dos 30 e de quebra ainda seria uma poeta célebre.

-E eu escreveria um livro biografico sobre sua vida e ganharia milhões.

- Tô transformando nosso diálogo num diálogo no blog.

- Transforme no que achar melhor. Tanto que nos transforme também.

3 comentários:

Rafael Zacca disse...

"e é por isso que esse é o grande objetivo da humanidade - é o amor"

é o objetivo de tudo.

agora, um diálogo, com esse diálogo:

"Evacuando pela pia

É inércia.
O peso no corpo
de não reagir.

A reação de não reagir.

É o peso dos desesperados,
da agonia do incerto.

O peito gritando mudo
me ensurdece.
As noites vazias
sempre vêm
com as frentes frias.

E os sonhos evacuando pela pia.

Sujeira
e inércia.
Banhar-me de sonhos
é limpar-me
ou vestir-me de mantos
que ocultam a sujeira?

A pia entupida.

O vazio da noite
e o zumbido no ouvido.
O ventilador ligado
mesmo sob tempo frio.

São os pensamentos
que resvalam pela cortina.
São mosquitos
da cor da noite.

O peso da noite
é mais cruel que o do dia.
A solidão mórbida
do meu quarto
inquietamente mudo.
As sensações resvalando
no não-gesto das coisas.

A briga pelo sono,
a manhã que não chega.
O barco não parte
e fica nesse mar de melancolia.
O barco não parte,
e a melancolia desvia para a pia.

E eu bebo água filtrada,
na cor do azul do dia.

E os sonhos evacuando pela pia.

É fácil perceber
a fonte que me renova.
O difícil é aceitar
que ela não seja
o que deveria ser.

O difícil é aceitar
que ela é o que deve ser.

Ela é o que deveria ser."

Boneca sem manual disse...

eu não sei se é pior cair nessa alma em que já nascemos poetas ou cair nessa história de que poeta não se livra do amor.
Vai ver a gente não é nem poeta, mas que a gente sofre de amor por sofrer. A gente degusta o sofrimento de um jeito... Deixa vou transformar isso num email.

Taiguara disse...

"Isso é andar na beira do abismo, meu amigo. Pra se jogar é apenas um passo"

E,então, quando vc já até tirou um pé do chão, já tá de saco cheio da corda bamba, um vento quente te joga pro alto, pra perto do sol e do calor. Vc sabe que acabará descendo, cedo ou tarde, mas, por hora, o melhor é curtir o passeio e o solzinho.