terça-feira, 29 de abril de 2008

Sobre ladrões, poemas, fixações e beleza.

Eu até tinha um poema novo, mas ele ficou no caderno que o ladrão levou.

O que me faz pensar nisso de querer cristalizar a poesia. Me dá uma sensação muito desagradável quando eu penso num verso e não posso escrevê-lo por algum motivo. Quando penso num verso e o perco. Quando vejo poesia e não sei traduzí-la.

Síndrome de historiador? Não sei. Eu prezo muito fixar momentos, sensações, na medida do impossível. Mas acho que quem escreve tem sempre isso. Não sei se é simplesmente uma questão de criar arte, ou melhor, de transformar arte nesse tipo específico de arte. Acho que existe algo mais, algum traço individual de... vontade de fazer lembranças. Lembranças belas. Querendo ou não, poesia sempre é bela.

O fio de lã mergulha
no vácuo preciso da agulha
e é então que começa
a arte de tecer lembranças. *


escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível.
fixava vertigens. **

Eu tive uma professora de artes no primeiro ano que ensinou (sem muita crítica às fontes, é verdade) que, em arte, tudo é sempre belo. Isso partindo do pressuposto de que "belo" era tudo aquilo que despertava no observador alguma espécie de sentimento. O exemplo clássico de belo que ela usava era o Saturno devorando os seus filhos, do Goya.



Assim, não importava se o sentimento era nojo, aversão, raiva ou desprezo (eu nunca perguntei sobre a indiferença... ou perguntei e não lembro a resposta) - o lance era despertar sentimento. Aí era belo. A beleza seria advinda do sentimento que o artista procurou exprimir.

Ela diferenciava desse conceito de belo o conceito de bonito, que seria o que se conhece genericamente como bonito mesmo.

Mas por que eu comecei a falar disso? Sei lá. Tudo começou com o ladrão. Na verdade - agora quebrando totalmente o paradigma do blog e entrando no campo pessoal - eu acho que o ladrão foi também um fim. Talvez um fim chocante e necessário para possibilitar um recomeço. Os astecas estavam certos, nunca devo esquecer que os astecas estavam certos nisso: a vida é cíclica.

* isso é meu.

**isso é do Rimbaud.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Nova edição da Poemática - 30/04




No próximo dia 30 de abril, quarta-feira, às 19h, será realizada uma nova edição da Poemática – A Indisciplina da poesia, que terá como tema "Poetas do mundo, uni-versos! - Homenagem ao dia do trabalhador", dia seguinte ao recital.

Para reger essa edição, convidamos o grupo Voluntários da Pátria (http://www.voluntariosdapatria.org/), formado por atores, músicos e poetas que têm um projeto artístico e político que se estende para além do palco. Tico Sta. Cruz, Betina Kopp (já conhecida do palco da Poemática), Bayard Tonelli, Edu Planchêz, Glad Azevedo, Igor Cotrim, Pedro Poeta e Tavinho Paes interpretam textos, crônicas e poemas de autoria própria em performances de improviso, interagindo o público que participa ativamente da construção do espetáculo. Junto aos voluntários estarão os poetas Gean Queiroz, Lucília Dowsley, Fernão Monteiro e Patrícia Carvalho-Oliveira.

Na última parte da Poemática o palco fica aberto para quem quiser recitar, representar ou o que for. É a hora de falar aquele poema escondido no fundo da gaveta aos quatro ventos! Contamos com a participação de todos para tocar pra frente esse espetáculo poético.

A Poemática acontece na Galeria de Artes do ICHF, que fica no Campus do Gragoatá da UFF, Bloco O, térreo. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail galeriadeartes@vm.uff.br ou na página www.galeriadeartesdoichf.blogspot.com.


Pra quem ainda não ouviu falar (porque eu dei mole e esqueci de divulgar a primeira edição do evento por aqui, a Poemática é um recital de poesia (ou um encontro artístico de múltiplas possibilidades, pra ser mais/menos precisa) coordenado por mim e pela Bia Tavares (Numa Noite Qualquer nos meus link), que tem o propósito acontecer toda última quarta feira de cada mês.


Vale a pena, meus caros, vale a peníssima. Fico emocionada só de pensar o quanto esse evento promete e do quanto, em tão pouco tempo, ele já fez.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Esquece.

"Penso em desistir o quanto mais - Mas você fica!
Você fica
- e é como mágica
que você nunca foge."


Não se pode esquecer versos
tão facilmente.
É que os versos se pegam
na alma da gente.
Uns versos certeiros
- flechadas certeiras -
que ficam cravados
nas nossas entranhas

e volta-e-meia brotam
cruéis, impiedosos,
quando acreditamos
tê-los no olvido.

Esquece.

Tentar arrancar
essas lanças do peito
custa sangue,
custa choro,
custa jorrar todo rio
mas é vão,
é vazio.

Não sai não.

sábado, 5 de abril de 2008

não sei o que faço

esperar é inútil
escrever, automático
chorar é preciso
mentir, sintomático
beber é solúvel
remoer, retrátil
recordar é íntimo
sonhar é portátil

viver é volátil

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Toma!

Toma, uma flor.
Toma um beijo.
Toma,
finda a sede de outro corpo,
de outra cor.
Toma,
bebe o suco
do meu coração.
Tá correndo;
é um rio.
Tô te dando,
pode tomar.

Toma
minha palma na sua
minha alma e a sua.

Toma
meus quadris
minhas costas
Toma o abraço.

Toma
meu carinho,
meu encanto.

Toma
Me bebe
Me toma

Toma
eu de presente

Toma meu gesto.

Toma,
pode engolir os meus versos.